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Ouro negro vegetal
Cientista da Embrapa Solos que pesquisa sobre Terra Preta é convidado para participar de consórcio internacional para estudo do biocarvão

Imagine uma tribo indígena que viveu numa área há milhares de anos. No local, havia o hábito de enterrar todo o tipo de lixo – orgânico e inorgânico. O mundo girou, os  milênios passam e, muito tempo depois, onde há a Floresta Amazônica, descobre-se que lá também está um dos solos mais férteis do mundo, as Terras Pretas de Índio, fruto da decomposição de todo aquele lixão que os nossos antigos índios enterraram. Hoje, em pleno século XXI, a Empresa Brasileira de Pesquisa Pecuária, por meio da Embrapa Solos, faz parte de um pool internacional de instituições de pesquisa que se dedica a buscar uma forma de reproduzir essa terra tão fértil, num curto intervalo de tempo e de modo economicamente viável. De forma paralela, a Embrapa Solos também está estudando outras formas de aproveitamento dos lixões urbanos e rurais e propõe uma utilização mais nobre a este grande problema ambiental e de saúde pública: transformar os lixões em biocombustível e/ou insumo agrícola.

Desde a década de 60, a ciência está estudando formas de aproveitamento e reprodutibilidade das Terras Pretas. Uma das últimas descobertas de utilização do carvão vegetal – presente nas Terras Pretas e fabricado na indústria – é como fertilizante e coadjuvante no seqüestro de gases do efeito estufa. Com o objetivo de estudar esses outros aproveitamentos do carvão vegetal foi formado o International Biochar Initiative (IBI), ao qual o pesquisador Etelvino Henrique Novotny, da Embrapa Solos, foi recém-convidado para fazer parte, ao lado de, até o momento, representantes de 13 países-membros.

Para se ter uma idéia do tamanho do espanto dos cientistas, foi constatado que as Terras Pretas de Índio contêm três vezes mais fósforo e nitrogênio (nutrientes para as plantas), se comparada ao solo comum, sem nunca ter recebido uma dose sequer de fertilizantes. Além disso, consegue remover o carbono da atmosfera de modo muito mais eficaz do que qualquer outro tipo de solo (um hectare de Terra Preta pode estocar 250 toneladas de carbono ou mais, em contraponto a 100 toneladas nos solos adjacentes). Diante disso, especialistas acreditam que, quando for possível a ciência reproduzir as Terras Pretas de Índio, haverá uma segunda Revolução Verde – só que desta vez, de uma forma ecologicamente correta. Um verdadeiro “ouro negro vegetal”, que a Embrapa espera que se transforme em um passaporte para a tão desejada sustentabilidade da Agricultura Tropical.

As Terras Pretas dos Índios são encontradas em diversos pontos da Floresta Amazônica, de forma aleatória, geralmente próxima aos rios – locais onde viviam muitas tribos. Estudar as Terras Pretas é estudar uma biomassa resultante da decomposição de todo aquele lixão indígena, relatado no início da matéria. Nela há raridades arqueológicas, como artefatos pré-colombianos, e uma massa orgânica escura, composta por bactérias e diversos tipos de resíduos orgânicos, altamente nutritivos para as plantas. Aliás, o nome “Terra Preta” tem sua razão de ser. Diferentemente dos solos comumente encontrados, a coloração dessas terras é preta, indicando um alto acúmulo de carvão – ou biocarvão, como também é chamado. É principalmente por causa desse carvão que as Terras Pretas têm uma capacidade de captação de carbono atmosférico bem maior do que outros solos. Esse carvão faz parte da matéria orgânica do solo e pode chegar a 7 mil anos de existência, conferindo alta fertilidade ao solo, de forma sustentável. Na Amazônia, há um comércio ilegal de Terras Pretas, que são vendidas como fertilizante. Mas o objetivo da Embrapa não é incentivar a sua exploração comercial pois trata-se de um patrimônio arqueológico, cultural e ambiental.  A meta da Embrapa Solos é conseguir replicar as Terras Pretas utilizando-se carvões vegetais de diferentes origens para, a partir daí, serem usados como insumo agrícola ou na produção de biocombustíveis. Este é um projeto de rede, que envolve nove unidades da Embrapa e mais seis instituições de pesquisa, sob a coordenação da Embrapa Solos. As Unidades da Embrapa são, além da Embrapa Solos, que é a coordenadora: Embrapa Amazônia Ocidental, Agrobiologia, Florestas,  Pecuária Sudeste, Instrumentação Agropecuária, Rondônia, Amazônia Oriental, Embrapa Suínos e Aves.
 
Quando o lixo vira lucro

Entre os estudos de reaproveitamento da biomassa – que pode ser derivada de cultivos,  resíduos industriais, ou ainda de qualquer lixão comum – está aquele que busca a reutilização de resíduos de carvão vegetal, que não é aproveitado pela indústria siderúrgica. O Brasil é o maior produtor mundial de carvão vegetal, respondendo por 38,5% da produção do planeta.  Desse montante, cerca de 10% são  de “finos de carvão”, de aproveitamento limitado. Nos estudos da Embrapa Solos, busca-se aproveitar esse material residual para a produção de insumo agrícola. “As possibilidades de reaproveitamento de resíduos urbanos e rurais são enormes,” informa Novotny. “A biomassa pode virar energia ou gerar produtos que substituiriam aqueles derivados de petróleo, tais como polímeros, plásticos, farmoquímicos, aditivos para automóveis, agroquímicos, etc. A biomassa também pode ser aproveitada na produção de energia, tais como etanol, gases combustíveis ou bio-óleo”, explica.

Segundo o pesquisador, há diversas experiências internacionais, inclusive em escala comercial, na produção de gases com finalidades energéticas ou produtos químicos substitutos dos derivados do petróleo, a partir de lixos urbanos. “Mas mesmo assim há resíduos não aproveitados, que podem ter destinos melhores do que poluir o meio-ambiente”, garante ele. Esses resíduos podem gerar um tipo de carvão esterilizado, que pode ser utilizado como insumo agrícola ou produzir produtos químicos de alto valor comercial. O mesmo pode ser feito a partir de qualquer outra biomassa, tais como o bagaço de cana-de-açúcar, resíduo da produção de álcool; resíduos da indústria de papel e celulose ou madeireira; resíduos da produção de biodiesel  entre tantos outros.

Todas essas pesquisas vão beneficiar diretamente o meio ambiente. Atualmente já há experiências utilizando o carvão vegetal em plantações de arroz irrigado diminuindo as emissões de outros gases do efeito estufa, tais como o metano e o óxido nitroso, gases que normalmente são  lançados na atmosfera pelos solos com este tipo de cultura. “O biocarvão também contribui para fixar o carbono no solo e aumentar a sua fertilidade, diminuindo assim a necessidade de fertilizantes e a pressão por desmatamentos de novas áreas”, atesta Novotny.

Com o êxito de pesquisas como essas, espera-se a realização de um paradoxo: por meio da alta tecnologia, ter um modo de vida tão sustentável quanto nossos antepassados indígenas no seu modo de viver rudimentar – uma terra fértil e um meio ambiente longe das ameaças presentes nos dia de hoje.
Texto – Elisângela Santos

Mais informações:
Carlos Dias
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C - (21) 9618-7735
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