Uma plantação de café pode levar três anos para crescer e dar frutos. A longa espera do cafeicultor pode ser decepcionante, se, a poucos meses da colheita os pés de café forem atacados por um fungo conhecido como ferrugem. A Hemileia Vastatrix, nome científico deste inimigo microscópico dos cafezais, reproduz-se rapidamente, fazendo estragos em grandes velocidades.

Assim como a ferrugem, há outros fungos e também insetos, bactérias e vírus que atacam as mais diversas plantações. A maneira mais comum de combatê-los é usando agrotóxicos, que também são chamados agroquímicos ou defensivos agrícolas. Mas vamos conversar aqui sobre outras soluções.

A agricultura passou por uma revolução na década de 1970, quando surgiram as primeiras grandes máquinas para ajudar os agricultores na lavoura. Aliado à mecanização do campo vieram, também, os primeiros agrotóxicos. Cada um era especializado para combater uma praga, doença ou erva daninha: inseticidas para atacar os insetos; herbicidas para as ervas daninhas; fungicidas para os fungos; nematicidas para nematóides.
A chamada Revolução Verde chegou ao Brasil um pouco mais tarde. E, tal como nos outros países, as novidades encantaram os agricultores brasileiros. Quem conseguia comprar os agrotóxicos acreditava que nunca mais perderia uma safra inteira com o ataque de uma nuvem de insetos, por exemplo.
Realmente, os agrotóxicos ajudaram a aumentar a produção agrícola no mundo inteiro. Porém, os agricultores, que pensavam ter vencido a guerra contra as pragas e doenças, estavam enganados...
A Natureza Contra-Ataca

Muitos agricultores aplicam esses produtos químicos na plantação para se prevenir do ataque de pragas ou doenças. O problema é que o uso abusivo de agrotóxicos fez insetos, fungos e bactérias ficarem mais resistentes.
A explicação é a seguinte: entre as milhões de lagartas que atacam uma plantação, por exemplo, sempre há algumas que nascem um pouco diferente das outras e conseguem sobreviver àqueles agrotóxicos. Então, essas lagartas que escapam se reproduzem e seus filhos também nascem resistentes. Aí, no próximo ataque, aquele agrotóxico usado para combater lagartas não será eficiente contra a nova geração da praga.
Pode-se criar, então, um ciclo vicioso: os cientistas desenvolvem um agrotóxico mais potente; a espécie combatida, depois de um tempo, torna-se resistente e os cientistas são obrigados a inventar outro agrotóxico mais forte ainda e por aí vai.

Hoje, sabe-se que, dependendo da intensidade do ataque de uma praga, não vale a pena aplicar esses produtos químicos. Na cultura da soja, por exemplo, não se recomenda mais aplicar agrotóxico para prevenir o ataque de pragas. O melhor é observar constantemente a população de insetos que ataca a plantação, para descobrir em que momento torna-se realmente fazer uso dos agrotóxicos. Esse controle é chamado manejo integrado de pragas. Reduzindo-se o uso de agrotóxicos, diminui-se a possibilidade de a praga ficar resistente a eles. Além disso, há menor risco de matar também os inimigos naturais da praga daquela plantação.
No algodoeiro, por exemplo, há uma praga chamada lagarta rosada. Para saber o momento exato da aplicação do agrotóxico que irá combatê-la, o agricultor conta o número de machos atraídos para uma armadilha que mistura água e a substância que a lagarta fêmea produz para atrair o macho, chamada feromônio glossiplure.
Suco de Lagarta Doente e Outras Soluções

Há, ainda, outros meios de combater pragas nas plantações. Um deles foi introduzido por pesquisadores da Embrapa Soja, de Londrina, no Paraná, onde os agricultores sofriam com o ataque das chamadas lagartas-da-soja. A técnica é curiosa e parece receita de bruxa, porque consiste em algumas dessas lagartas que estejam doentes e bater no liquidificador com água. O resultado é um suco de lagarta doente que, se borrifado sobre a plantação, contamina e mata as outras lagartas! Nesta técnica, chamada controle biológico, é preciso muito cuidado com a quantidade de lagartas doentes para fazer o suco e com o tamanho da área a ser borrifada, para não alterar drasticamente o ecossistema.
Outra técnica que faz parte do controle biológico é plantar diferentes culturas no mesmo espaço. Por exemplo: num sítio, quando se tem a plantação de soja ao lado do milho, do café ou de uma mata, as pragas da soja causam menos problemas para o agricultor, porque os inimigos naturais desta praga encontram abrigo na mata, nas plantações de milho ou de café.
Como é Aplicado o Agrotóxico?
Dizem que onde há fumaça, há fogo. Mas uma enorme cortina de fumaça cobrindo uma plantação pode não ser um incêndio e, sim, o sinal da aplicação de um agrotóxico. Essa fumaça pode ser considerada uma ilusão de ótica, pois é composta de gotículas do agrotóxico. Para pulverizar - é esse o nome do processo - suas plantações, os agricultores, às vezes, usam aviões. Há, ainda, os que preferem tratores. Já em lavouras pequenas, os próprios agricultores caminham pelo campo e pulverizam o agrotóxico usando um pequeno equipamento, que consiste numa mochila com um tubo conectado por saem as gotículas. A aplicação é sempre feita no começo da manhã ou no fim da tarde, pois a alta temperatura do meio-dia pode prejudicar a ação das substâncias químicas. Também evitam-se dias com vento forte. A pulverização é uma das formas de se aplicar agrotóxicos, mas há, também, o banho de sementes com agrotóxico antes de semear o campo.
Há quem diga, como no futebol, que "a melhor defesa é o ataque". Assim, existem experiências para aumentar a resistência das plantas, em vez de combater diretamente as pragas e doenças. Os pesquisadores têm duas maneiras de fazer isso: a primeira é cruzar sucessivamente indivíduos da espécie de planta até conseguir um que seja mais resistente; a outra é fruto da engenharia genética, isto é, com técnicas de última geração, os pesquisadores conseguem introduzir algum gene na planta, tornando-a resistente a uma praga ou doença específica. Ao se reproduzir, a planta geneticamente modificada gera descendentes também resistentes. Esta, porém, é uma solução nova que, em alguns casos, necessita de mais pesquisas científicas para saber se os vegetais alterados em laboratório causam algum mal ao ecossistema ou às pessoas que se alimentarem deles.
Pode ser que o desenvolvimento dessas novas alternativas - em especial a engenharia genética - determine, dentro de algumas décadas, o fim do uso dos agrotóxicos. Atualmente, o mais importante é combinar as diferentes técnicas para evitar a poluição do solo e da água e controlar a praga ou doença. Ainda é muito cedo para dar essa batalha por encerrada. Até porque a natureza sempre guarda surpresas para o homem quando ele pensa que, finalmente, a dominou.
Males à Saúde

Muitos trabalhadores rurais prejudicam a sua saúde porque não seguem as regras de segurança na hora de aplicar os agrotóxicos. Mesmo aqueles que possuem roupas protetoras, no verão, costumam deixá-las de lado por causa do calor. Essa exposição a agrotóxicos gera problemas de pele, mudanças de humor e danos ao sistema nervoso.

Não é só a saúde do trabalhador rural que está ameaçada. Os consumidores na cidade também podem ser afetados, porque, depois da aplicação de um agrotóxico na lavoura, há um prazo mínimo que o agricultor antes de colher e vender o que plantou. Esse prazo de carência varia de acordo com o agrotóxico usado e refere-se ao tempo necessário para que ele perca sua ação tóxica para os seres vivos, possibilitando às plantas tornarem-se próprias para a alimentação humana. No entanto, na ânsia de vender sua produção, nem todos os agricultores cumprem esse prazo.

Pedro Luiz O. Almeida Machado
ilustrações de Alexandre A. C. de Mello

artigo publicado na revista Ciência Hoje das Crianças, setembro de 2000

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